Minerais Venenosos, Cancerígenos e Radioativos
MINERAIS RADIOATIVOS
O urânio é por si mesmo um elemento tóxico, afetando principalmente aos rins. Isso deve-se ter presente quando se maneja seus minerais. Além disso, tanto seus minerais como aqueles de tório apresentam basicamente três tipos de riscos devido a sua radioatividade. Estes riscos são a irradiação externa, a irradiação interna por ingestão e a irradiação interna por inalação dos produtos de fissão do radônio.
O primeiro risco não parece ser excessivamente sério por várias razões. Primeiramente, uma parte importante da emissão do urânio e tório é em forma de partículas alfa . Seu poder de penetração é muito reduzido, sendo retidas em sua maior parte por uma pequena capa de ar ou uma folha de papel. A propósito, o próprio mineral detém todas aquelas que provém de seu interior. Além disso, ao diminuir a radiação recebida com o quadrado da distância, basta colocar os exemplares na parte mais interna dos expositores ou vitrines para reduzir muito a dose. Evitando procedimentos evidentemente imprudentes, como colecionar amostras de grande tamanho e muito ricas, armazenar amostras em duplicada em baixo da cama, levar as amostras no bolso ou converter a casa em uma "anomalia
radioativa", com certo colecionador americano, cujo desvio foi detectado em uma campanha de prospecção aérea, a irradiação externa não é muito preocupante.
A irradiação interna por ingestão pode ser evitada não comendo nem fumando enquanto se manipula os minerais, lavando-se as mãos depois, etc... Como no caso da toxidade, a solubilidade do mineral e o seu grau de divisão são igualmente importantes. Por sorte, neste caso muitos minerais com tendência de aparecer na forma pulverulenta, como a carnotita, são também muito insolúveis.
A emissão do radônio pode ser o maior risco nos minerais radioativos. Este gás é um produto da desintegração do rádio que por sua vez é o do urânio. Nos minerais primários antigos, estes elementos estão em equilíbrio, mas nos secundários, mais modernos em geral, é possível que o conteúdo de radio e a emissão de radônio é menor. O tório também emite radônio em sua desintegração, mas é um isótopo diferente. O radônio é um gás quimicamente inerte com uma vida curta. O risco principal aparece quando se desintegra, dando lugar a isótopos quimicamente muito reativos e de vida relativamente grande, que se unem a qualquer partícula presente no ar (procedente, por exemplo, da fumaça do cigarro) e podem, assim, alcançar e irradiar os pulmões. Considera-se que esta irradiação é um fator de risco importante na aparição do câncer de pulmão. As medidas de precaução que podem ser adotadas são desde guardar os minerais radioativos em lugares ventilados até conte-los em recipiente herméticos. A combinação radônio - fumaça de cigarros é especialmente nociva, por isso a atitude de não fumar é uma forma de reduzir o perigo.
MINERAIS CANCERÍGENOS
Ainda bem que são poucos. Mas um deles, ou melhor uma família, o asbesto, está muito difundido. O mais perigoso é o chamado "asbesto azul" , ou crocidolita, mas nenhum componente da família está isento de riscos. O perigo está na passagem aos pulmões de fibras diminutas destes minerais, produzidas durante a extração ou limpeza de exemplares. Quanto menores as fibras, mais perigosas são. Em conseqüência devem-se adotar precauções, evitando processos como serrar as pedras a seco, ou utilizando máscaras nos trabalhos em minas onde este minerais está presente. Deve-se considerar a existência de asbesto "invisível" , por exemplo em exemplares de serpentina, incluso naqueles com qualidade de lapidação. É preferível que os piroxênios e anfibólios fibrosos (do tipo da bisolita) estejam em caixas fechadas.
De maneira geral, aspirar o pó de qualquer mineral pode ser muito nocivo à saúde. Nas minas ativas tomam-se usualmente as precauções adequadas, que devem ser estendidas às atividades de coleta de minerais em minas abandonadas, pilhas de rejeitos, etc... e à preparação e manipulação dos exemplares.
Alguns derivados de metais como o cromo e o níquel são considerados como fatores de risco de câncer na toxicologia industrial. Mas no caso dos minerais, as espécies comuns são extremamente insolúveis e não estão no estado químico necessário. Além disso, aquelas que poderiam ser cancerígenas (por exemplo, a lopezita) são extremamente raras.
MINERAIS VENENOSOS
Os minerais de arsênico são os mais importantes entre estes, tanto pela sua abundância como por sua elevada toxidade, sempre devendo ser manejadas com cuidado.
Todos aqueles que são solúveis, como os óxidos e os arseniatos de metais alcalinos e alguns dos alcalinos terrosos são muito perigosos, devendo serem manejadas com extremo cuidado e nunca devem ser deixados ao alcance das crianças. Entre estes minerais temos:
Arsenolita
Claudetita (pouco mais de 100 miligramas causam a morte)
Farmacolita
Picrofarmacolita
Weilita
Bukowskita
Guerinita
Haidingerita
Rauenthalita
Hoernesita
Mcnearita e muitos outros.
Com a diminuição da solubilidade, diminui-se o risco, mas outros arseniatos, como a escorodita, eritrina ou annabergita, e sulfetos como o ouropigmento e realgar , exigem a adoção de certas precauções. No extremo da escala de perigo estão minerais como o mispiquel (arsenopirita) ou a mimetita, onde bastam os cuidados comuns.
Deve ter-se em conta também a presença de minerais perigosos "camuflados" . Por exemplo, a alteração pela ação da luz do realgar produz óxidos de arsênico, assim como a oxidação do arsênico nativo, e já temos dito que sua solubilidade os deixa muito perigosos. O mispíquel ao ar livre altera-se facilmente, formando uma crosta que inclui arseniatos mais ou menos solúveis. Por isso deve-se ter especial cuidado com material de pilhas de rejeito que contém minerais de arsênico (não apenas filões com sulfetos; o mispíquel abunda também em alguns pegmatitos), não convém comer nem fumar sem antes lavar as mãos.
São especialmente perigosos os antigos fornos de queima e suas chaminés, condutos, etc... que podem estar recobertos por uma grossa capa de óxidos de arsênico. Em algumas pilhas de rejeitos ou em minas de carvão onde ocorreu combustão espontânea podem aparecer também óxidos ou sulfetos de arsênico.
O antimônio é um parente próximo do arsênico. Ainda que menos venenoso, deve-se ter cuidado especialmente com os minerais pulverulentos chamados às vezes de ocres de antimônio, produto de alteração sobre a estibinita. Entre eles temos cervantita, senarmontita, estibiconita, bindehumita e outros, que são abundantes nas pilhas de rejeitos das minas de antimônio. Estes minerais representam um risco adicional quando os exemplares de antimonita são tratados com ácidos para eliminar a calcita que a acompanha e por vezes engloba completamente os cristais. Em primeiro lugar formam-se compostos de antimônio solúveis e venenosos. Ademais pode-se formar hidrato de antimônio, um gás muito tóxico. Este composto se forma na presença de metais que podem ser atacados pelo ácido que se está usando, como por exemplo o ferro. Por isso, nunca devem-se usar objetos metálicos (recipientes, pinças, etc..) quando se limpa com ácido os minerais de antimônio. O bismuto, terceiro membro desta família, não parece representar um risco sério devido à sua toxidade relativamente baixa e devido à insolubilidade de seus minerais.
Como se disse antes, a solubilidade é decisiva no caso do bário. Os minerais solúveis, como a witherita, alstonita e baritocalcita podem ser perigosos, principalmente na forma pulverulenta. O mesmo acontece com os fluoretos. A villiaumita é muito venenosa, e sua cor rosa e sua exfoliação fazem com que uma criança possa confundir certos exemplares com um caramelo. Uma peça deste tamanho pode ser mortal. A fluorita, ao contrário, não requer evidentemente nenhuma precaução especial em seu manejo.
Os minerais solúveis de ferro e cobre como a calcantita e a melanterita são relativamente venenosos e causam com certa freqüência intoxicações em crianças provavelmente ao confundir seus cristais (artificiais na maior parte dos casos) com caramelos. A calcantita é especialmente perigosa, já que tem um sabor metálico doce que não é especialmente desagradável, assim como a melanterita. Este último material, de origem artificial, é uma das causas importantes de intoxicações infantis nos Estados Unidos. Outros minerais de ferro são menos tóxicos e em muitos casos seu sabor é suficientemente repugnante para que a quantidade ingerida e o risco corrido não resultem muito grandes.
Um cientista especialista em alimentos escreveu certa vez que, em doses excessivas, tudo pode ser nocivo, inclusive o amor de uma mãe. O mesmo pode dizer-se da halita, da silvita, carnalita, sulfatos e carbonatos de sódio, potássio, nitratos, e fosfatos e boratos solúveis, que em geral não representam um risco grande quando se encontram em uma coleção de minerais, se bem que os boratos (daqueles dos quais algumas gramas podem ser letais para uma criança) tendem a acumular-se no organismo. Os nitratos unem a uma certa toxidade a possibilidade de, em certas circunstâncias, de intervir na formação de nitrosaminas, substâncias reconhecidas como cancerígenas. Os chamados " metais pesados" são todos venenosos, mas na natureza se encontram em geral em forma de minerais muito insolúveis, e os exemplares de coleção não parecem representar um risco. O chumbo é o mais importante por sua grande difusão, devendo-se adotar algumas precauções no caso de exemplares pulverulentos, como são os de mínio e alguns de cerussita e de anglesita. A anglesita é relativamente solúvel em água (quase uma grama em dois litros) mas se dissolve muito lentamente. A cotunnita é um pouco mais solúvel, mas é muito rara. O risco de intoxicação aguda por chumbo somente torna-se importante no caso de se beber água das águas que escorrem de uma mina, uma barbaridade evidente mas mais comum do que se pensaria à primeira vista. A manipulação de compostos de chumbo durante muito tempo pode dar lugar a intoxicações crônicas, já que este mineral tende a acumular-se no organismo.
O tálio é uma elemento muito perigoso por sua toxidade aguda e pelos riscos a longo prazo, já que também se acumula no organismo. Seus minerais, como a lorandita, a raguinita, a pierrotita e a galkhaita, são muito raros, mas devem ser manejados com precaução, sobretudo se estão acompanhados de produtos de alteração pulverulentos, que se formam facilmente.
O cádmio também é tóxico. O único mineral relativamente freqüente deste mineral é a grenockita, que é ligeiramente solúvel em água e, além disso, aparece sempre na forma pulverulenta. Tendo sido usada para colorir sabonetes, deve ser vista com certa reserva.
O mesmo pode-se dizer de um mineral muito comum, a pirolusita, e em geral dos óxidos de manganês. Sua periculosidade não está tanto no seu conteúdo de manganês como em sua ação oxidante e na possibilidade de que forme cloro com o ácido clorídrico do estômago. Sua aparição habitual em forma pulverulenta aumenta os riscos de aumentar a sua reatividade.
O mercúrio representa um caso especial. Seus compostos solúveis são muito venenosos, mas são extremamente raros na natureza. O mercúrio metálico é um tóxico acumulativo por inalação. Mesmo que não pareça, as pequenas gotas de mercúrio que evaporam (muito lentamente, é claro), podem passar através dos pulmões ao sistema nervoso. Ali o mercúrio se acumula, podendo ocasionar, em casos extremos, transtornos neurológicos gravíssimos, levando inclusive à morte. Os exemplares com mercúrio nativo devem ser guardados portanto em caixas herméticas. O cinábrio e outros minerais devem ser limpos cuidadosamente até eliminar qualquer rastro de mercúrio, incluindo a sua presença nas rachaduras, selando as mesmas se sua limpeza não for possível. O calomelano, um cloreto de mercúrio, ao alterar-se pela ação da luz, forma mercúrio metálico e cloreto mercúrico, também conhecido como " sublimado corrosivo" , um produto muito perigoso. Isto deve ser levado em conta ao manipular-se exemplares antigos deste mineral.
O selênio é o elemento do qual a dose indispensável e que resulta tóxica estão mais próximas, sendo uma dez vezes maior que a outra. Em algumas zonas, sua presença no pasto, que o capta do solo, faz com que seja nocivo ao gado. Usualmente os minerais de selênio algo solúveis não passam do tamanho de " micromounts" , mas, mesmo assim, deve ter-se em mente a sua toxidade.